Guia · Inteligência artificial e tradução

Inteligência artificial na tradução: por que razão a revisão humana continua a ser essencial

A IA consegue produzir traduções muito fluentes. O problema é que uma frase pode ser convincente, natural e, ainda assim, não corresponder ao original.

A inteligência artificial alterou profundamente a forma como produzimos e traduzimos texto. Ferramentas de tradução automática e modelos de inteligência artificial generativa conseguem hoje traduzir milhares de palavras em poucos segundos e produzir resultados que, à primeira leitura, parecem naturais e convincentes.

Isso representa um progresso tecnológico significativo. Mas introduz também um problema menos evidente: quanto mais convincente parece uma tradução, mais fácil pode ser confiar num erro que não parece um erro.

Existe uma diferença fundamental entre produzir um texto linguisticamente plausível e garantir que esse texto transmite com precisão o conteúdo do original. É nessa diferença que a revisão humana continua a ser essencial.

O erro mais perigoso é aquele que parece correto

Um erro ortográfico ou uma frase mal construída são fáceis de identificar. Uma frase perfeitamente escrita que transmite uma ideia diferente é muito mais problemática.

Um sistema de inteligência artificial pode selecionar uma aceção incorreta de uma palavra, omitir uma restrição, alterar uma relação lógica, resolver uma ambiguidade ou acrescentar implicitamente uma explicação que não consta do original. O resultado pode continuar a soar inteiramente natural.

Este problema é particularmente relevante porque os modelos generativos são concebidos para produzir linguagem coerente e plausível. A qualidade da formulação não constitui, por si só, prova da qualidade da tradução.

Fluência não é fidelidade. Para saber se uma tradução está correta, é necessário compará-la com o original.

Traduzir não é substituir palavras

Uma tradução profissional não consiste em encontrar uma palavra equivalente noutra língua para cada palavra do original. As línguas dividem a realidade de formas diferentes e os conceitos não coincidem sempre.

Isto torna-se especialmente evidente na tradução jurídica. O termo inglês consideration, por exemplo, tem um significado técnico próprio no direito contratual dos sistemas de common law. Traduzir automaticamente a palavra por «consideração» pode produzir uma frase linguisticamente possível em português sem transmitir o conceito jurídico em causa.

O problema não se resolve procurando uma correspondência num dicionário. É necessário perceber primeiro o conceito e só depois decidir como o representar na língua de chegada. O mesmo princípio aplica-se a terminologia financeira, empresarial, administrativa, científica ou técnica.

O contexto pode estar várias páginas atrás

Outra limitação de uma abordagem puramente frase a frase é que o significado raramente termina na frase. Um pronome pode remeter para uma entidade anteriormente identificada. Um termo pode ter sido definido no início de um contrato. Uma abreviatura pode adquirir um significado específico dentro do documento. Uma decisão terminológica tomada na página 2 tem de continuar coerente na página 40.

A tradução deve, por isso, ser analisada como documento e não apenas como uma sucessão de segmentos independentes. É esta leitura global que permite avaliar não apenas se uma frase é possível, mas se é a frase certa naquele texto concreto.

Tradução automática e IA generativa não são exatamente a mesma coisa

É importante distinguir tecnologias diferentes que, na linguagem corrente, são frequentemente agrupadas sob a designação de «inteligência artificial».

Os sistemas de tradução automática são desenvolvidos especificamente para transformar conteúdo de uma língua noutra. Os grandes modelos de linguagem utilizados em ferramentas de IA generativa têm uma função muito mais ampla: podem traduzir, resumir, explicar, reformular, desenvolver argumentos e produzir conteúdo novo.

Essa versatilidade pode ser útil, mas cria uma diferença importante. Num resumo ou numa explicação, tornar uma ideia implícita mais clara pode ser desejável. Numa tradução fiel, pode constituir uma alteração do original.

O tradutor tem de distinguir entre aquilo que o texto diz, aquilo que provavelmente pretende dizer e aquilo que seria possível acrescentar para o tornar mais claro. Nem sempre são a mesma coisa.

Então não se deve utilizar inteligência artificial para traduzir?

Essa conclusão seria excessiva. A inteligência artificial pode ser uma ferramenta valiosa no trabalho linguístico. Pode auxiliar pesquisas, permitir comparar soluções, ajudar a detetar inconsistências ou produzir uma primeira versão suscetível de posterior pós-edição.

A própria Direção-Geral da Tradução da Comissão Europeia utiliza tradução automática no seu fluxo de trabalho: o sistema eTranslation produz traduções automáticas em bruto e os tradutores da Comissão podem utilizar esses resultados como recurso opcional.

A questão relevante não é simplesmente se foi utilizada IA, mas como foi utilizada e quem verificou o resultado.

Como avalia a Comissão Europeia a qualidade de uma tradução?

A abordagem da Direção-Geral da Tradução à qualidade é particularmente útil porque não reduz a qualidade à correção gramatical. A Comissão define uma tradução adequada à finalidade como aquela que transmite o mesmo significado e efeito do original, lê naturalmente na língua de chegada e é avaliada tendo em conta o contexto, o público destinatário e o risco associado ao documento.

Nem todos os erros têm a mesma consequência. Um erro em legislação pode ter consequências jurídicas ou processuais; noutros tipos de texto pode afetar a compreensão, a credibilidade ou a confiança. Por isso, textos de maior risco exigem tradutores mais experientes e controlos mais extensos.

A própria tradução automática avisa que pode estar errada

Nas páginas do portal Europa traduzidas automaticamente, a própria Comissão Europeia explica que a qualidade e a exatidão da tradução automática podem variar consideravelmente entre textos e pares linguísticos e que não garante a exatidão dos resultados. Para legislação da União Europeia, remete para as versões autênticas disponíveis no EUR-Lex.

Isto não significa que a tradução automática seja inútil. Significa que uma tradução automática e uma tradução validada não são a mesma coisa.

O que é a pós-edição?

Quando uma tradução automática constitui uma base suficientemente boa para trabalhar, pode ser submetida a pós-edição. A pós-edição profissional não consiste simplesmente em tornar o texto mais elegante.

Implica confrontar a tradução com o original, corrigir erros de sentido e terminologia, eliminar omissões ou acrescentos indevidos, garantir coerência e obter um texto adequado à finalidade definida.

A importância desta atividade é reconhecida pela ISO 18587:2017, que estabelece requisitos para a pós-edição humana completa de resultados de tradução automática e para as competências dos profissionais responsáveis por essa tarefa. A ISO indica também que está em desenvolvimento uma revisão da norma, dedicada à pós-edição de resultados de tradução não humana.

Se recebeu uma tradução produzida por IA e pretende validá-la, consulte o serviço de pós-edição e revisão bilingue.

Porque é particularmente importante na tradução jurídica?

Um documento jurídico não é apenas linguagem. É linguagem inserida num sistema conceptual.

Termos aparentemente semelhantes podem representar institutos diferentes em ordenamentos jurídicos distintos. Palavras comuns podem adquirir um significado técnico. Uma modalidade verbal pode alterar o alcance de uma obrigação. Uma tradução demasiado explicativa pode eliminar deliberadamente uma ambiguidade presente no original.

Nestes casos, não basta perguntar se a solução escolhida é linguisticamente provável. É necessário determinar se é juridicamente adequada naquele contexto. Isso pode exigir consulta de legislação, jurisprudência, bases terminológicas institucionais, documentação oficial ou outras fontes especializadas.

Há ainda uma questão de confidencialidade

Antes de introduzir um contrato, peça processual, relatório, documento de identificação ou outro conteúdo de um cliente numa ferramenta externa de IA, existe uma questão anterior à própria qualidade da tradução: que informação está a ser transmitida ao sistema?

Sempre que a utilização implique tratamento de dados pessoais sujeito ao Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados, mantêm-se aplicáveis os princípios e obrigações relevantes. O artigo 5.º do RGPD inclui, entre outros, os princípios da licitude, lealdade e transparência, limitação das finalidades, minimização dos dados e exatidão.

O Supervisor Europeu da Proteção de Dados publicou orientações atualizadas sobre IA generativa e proteção de dados. As orientações dirigem-se às instituições, órgãos e organismos da União Europeia, mas constituem uma referência institucional útil sobre questões como finalidade, responsabilidades, minimização e direitos dos titulares dos dados.

E o Regulamento Europeu da Inteligência Artificial?

A União Europeia dispõe também de um quadro jurídico específico para a inteligência artificial. O Regulamento (UE) 2024/1689 — Regulamento da Inteligência Artificial estabelece regras harmonizadas para a IA na União Europeia, com obrigações diferenciadas em função dos sistemas e das respetivas utilizações.

O Regulamento da Inteligência Artificial não funciona, contudo, como uma certificação da qualidade linguística de uma tradução. Um sistema cumprir as regras que lhe sejam aplicáveis e uma determinada tradução estar correta são questões diferentes. A segunda continua a exigir avaliação do texto.

O verdadeiro papel do tradutor está a mudar

Durante muito tempo, a imagem tradicional do tradutor era a de alguém que produzia sozinho cada frase da tradução. As ferramentas atuais tornam essa descrição cada vez menos completa.

Memórias de tradução, bases terminológicas, pesquisa automática, tradução automática e inteligência artificial podem participar, em diferentes graus, no processo de trabalho. O valor profissional desloca-se cada vez mais para aquilo que a tecnologia não resolve automaticamente: selecionar, interpretar, verificar, contextualizar e assumir responsabilidade pelas decisões tomadas no texto.

A pergunta certa

Perguntar simplesmente «esta tradução foi feita com inteligência artificial?» diz hoje relativamente pouco sobre a qualidade do resultado.

Há perguntas melhores: que ferramenta foi utilizada? Para que finalidade? O documento era adequado a esse processo? O resultado foi comparado integralmente com o original? A terminologia foi validada? Foram considerados o contexto e a finalidade do documento? Houve um profissional responsável pelo resultado final?

No fim, a questão essencial continua a ser simples: o texto traduzido transmite, de forma correta, completa e adequada, aquilo que o original diz?

A tecnologia pode ajudar a produzir uma resposta. A revisão humana permite verificá-la.
WhatsApp
Membro de Mediterranean Editors and Translators (MET)
Informação legalNIF: 262 845 040 Informação ao consumidorResolução de litígios (CNIACC) Acesso oficialLivro de Reclamações Eletrónico ↗